“Sim, vamos começar a reconstrução. E se encheram de coragem.” (Ne 2.18)

Há certos assuntos do cotidiano que estão sempre presentes em nossas conversas: filhos, saúde, comida, contas a pagar etc. E na caminhada de fé não é diferente. Há assuntos que sempre voltam à tona. Um deles, que tem sido discutido nesta coluna, é a nossa atuação como cidadãos. Devemos nos preocupar com as coisas terrenas ou só com as eternas? A vida pode ser “dividida” dessa maneira? Qual é, de fato, a nossa vocação?

Imagino que certos leitores, ao lerem esta série sobre os Objetivos do Milênio, fiquem se perguntando se Ultimato não estaria equivocada ao dar prioridade a estas coisas. Por que falar de fome, educação, mortalidade infantil, meio ambiente, se está em jogo o destino eterno das pessoas?

Na verdade, a eternidade não é algo desvinculado dos temas da vida, nem é uma mera questão de futuro. A eternidade passa a ser realidade a partir do momento em que o senhorio de Jesus Cristo e os sinais do reino de Deus se tornam presentes na nossa vida pessoal e comunitária. Quando Jesus libertou o geraseno dos demônios que o atormentavam (Lc 8.26-39), ele não estava apenas devolvendo a um homem o seu futuro, mas também o seu presente. O gesto de Jesus não teve um caráter meramente pessoal, mas também comunitário. No momento em que este homem é liberto, seu presente se torna absolutamente diferente, e ele é devolvido à sociedade como uma pessoa transformada. Ele já não é um risco para a sociedade, mas passa a ser um agente de promoção de vida em seu meio. Jesus lhe diz: “Volte para casa e conte o quanto Deus lhe fez”.

Nos Evangelhos, a vivência integral de Jesus nos convida e desafia para a vivência inteira do evangelho, na qual fazer o paralítico andar é tão importante quanto que ele não peque mais (Jo 5.1-14). E assim deve acontecer com os seguidores de Jesus. Não somos chamados apenas a “povoar os céus”, como diz uma expressão antiga, mas também a construir uma cidadania que busque o estabelecimento de sociedades mais justas, mais amorosas e mais felizes.

É por isso que nos aliamos às Nações Unidas na declaração dos Objetivos do Desenvolvimento do Milênio e celebramos quando eles são alcançados. Quando uma mãe dá a luz um filho e ambos sobrevivem, Jesus se alegra. Quando as crianças conseguem ter acesso à escola e continuar estudando no decorrer dos seus anos de crescimento, Deus sorri. Quando as mulheres são melhor tratadas por seus maridos e a violência doméstica diminui, o Espírito Santo sopra com alegria. Quando uma pessoa angustiada é encontrada pelo evangelho da graça, os anjos festejam; e quando o anúncio do evangelho promove o arrependimento e o encontro de nova vida, a igreja dança ao ritmo da dança da própria Trindade. Deus se alegra em ver as pessoas inteiras e satisfeitas — seja hoje ou amanhã, mas de preferência hoje; seja como indivíduos ou como comunidade, mas quanto mais gente, melhor.

Um dos belos exemplos bíblicos em que vemos uma mudança fundamental de vida pessoal e coletiva tornar-se realidade está no livro de Neemias. Ali encontramos um homem que abraça o chamado para reconstruir os muros de uma cidade empobrecida e explorada. Um homem vocacionado para guiar o povo de Israel a uma profunda renovação da sua relação com Deus e assim estabelecer as bases para uma sociedade mais justa, mais humana e mais reverente ao próprio Deus. E tudo isso ele faz em conjunto com o povo, desafiando inimigos externos e com um compromisso de vida pessoal que modela integridade, entrega e resposta ao chamado de Deus.

Neemias viveu num tempo de muita dor, pobreza e exploração do seu próprio povo. Mesmo vivendo em situação muito privilegiada como copeiro do rei da Pérsia, não se esqueceu do seu próprio povo. Quando surgiu a oportunidade, procurou informar-se sobre ele e, ao deparar-se com a realidade, não ficou indiferente: “Quando ouvi essas coisas, sentei-me e chorei. Passei dias lamentando-me, jejuando e orando ao Deus dos céus” (Ne 1.4). Neemias ouviu a Deus e lhe obedeceu, na sua geração e no seu contexto.

A nossa geração de cristãos, no Brasil de hoje, é chamada a fazer o mesmo. Orar com fervor e se dispor a servir a Deus com inteireza e vigor. Engajar-se na sociedade, exercitando uma cidadania que honre o Senhor, que expresse uma igreja viva e atuante e busque a construção de uma sociedade onde as crianças já não precisem viver apenas poucos dias (cf. Is 65.20).

Quando, em 2015, as Nações Unidas procederem a uma avaliação dos objetivos que se pretendia alcançar até lá, os resultados certamente serão disformes. Enquanto alguns países terão alcançado estes objetivos com alguma folga, outros continuaram a mostrar índices que espelham muito sofrimento, dor e injustiça. Mas seria muito bom se nas Nações Unidas se pudesse dizer também que significativos setores da Igreja, nestas últimas décadas, viveram uma cidadania que fez diferença na qualidade de vida das pessoas, especialmente dos mais pobres. E isso nós fazemos para glória de Deus.

Autor: Valdir Steuernagel – www.ultimato.com.br